Feijão carioca recupera preço no fim de agosto após queda mensal, aponta Cepea
Mercado · Por Redação ConectaAgro · 31 de agosto de 2026
Variedade carioca encerrou agosto em alta após desvalorização ao longo do mês; feijão preto manteve sustentação de preços no período, segundo o Centro de Pesquisas Econômicas da Esalq.
O feijão-carioca voltou a registrar alta de preços no final de agosto nas principais regiões produtoras acompanhadas pelo Centro de Pesquisas Econômicas da Esalq (Cepea). A reação ocorreu após um mês predominantemente de queda para a variedade mais consumida no Brasil, que enfrentou pressão vendedora ao longo do período. O feijão-preto, por sua vez, manteve comportamento distinto e seguiu sustentado durante todo o mês, segundo o Cepea.
A virada do carioca no fim de agosto tem relevância direta para produtores que ainda carregavam estoques da segunda safra e para atacadistas que operam com reposição de curto prazo. Em um mercado historicamente volátil e com cadeia de comercialização fragmentada, qualquer sinalização de recuperação de preço ao fim do ciclo mensal pode antecipar movimentos de compra e influenciar a formação de preço da safra seguinte.
Colheita da terceira safra como fator de pressão e alívio
De acordo com o resumo divulgado pelo Cepea, o avanço da colheita da terceira safra de feijão foi um dos fatores que moldou o comportamento dos preços ao longo de agosto. A chegada de produto novo ao mercado tende a ampliar a oferta disponível e pressionar cotações para baixo — dinâmica clássica nos períodos de colheita do feijão no Centro-Oeste e em estados como Goiás e Minas Gerais, que concentram parte relevante da produção da chamada "feijão das águas" tardia e da terceira época de plantio.
A reação observada no fim do mês sugere que o fluxo de colheita começou a perder intensidade ou que a absorção pelo mercado consumidor equilibrou a oferta adicional. O feijão-carioca responde pela maior parcela do consumo nacional — estimativas históricas do setor apontam que a variedade representa entre 60% e 70% do feijão consumido no país —, o que torna suas oscilações de preço especialmente sensíveis para a inflação de alimentos e para a renda do produtor familiar.
O feijão-preto, predominante no Sul do Brasil e com mercado consumidor mais concentrado geograficamente, apresentou comportamento mais estável. A sustentação dos preços dessa variedade ao longo de agosto indica equilíbrio entre oferta regional e demanda, sem o mesmo volume de produto novo que pressionou o carioca. Mercados como o gaúcho e o catarinense, principais consumidores do preto, tendem a absorver a produção local com menor volatilidade sazonal.
Contexto: mercado de feijão entre safras e pressão de custos
O comportamento de agosto se insere em um ciclo mais amplo de atenção ao mercado de feijão no Brasil. O país opera com três janelas de safra — primeira (das águas), segunda (da seca) e terceira (irrigada ou de inverno) —, o que distribui a oferta ao longo do ano, mas também cria janelas recorrentes de pressão de preço a cada colheita. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) acompanha as estimativas de produção safra a safra, e qualquer frustração ou excesso de oferta em uma das épocas reverbera rapidamente no mercado spot, dado o baixo nível de estoques reguladores no setor.
Nos últimos anos, o feijão-carioca conviveu com volatilidade acentuada, influenciada por fatores climáticos — especialmente o El Niño e La Niña, que afetam o calendário de plantio e a produtividade —, pela variação do custo de insumos e pelo comportamento do consumo interno, que oscila conforme renda das famílias de baixa renda, principal público consumidor da leguminosa. O monitoramento semanal do Cepea é uma das referências mais utilizadas por cooperativas, atacadistas e tradings que operam com feijão no mercado doméstico.
Atores e impactos na cadeia
A recuperação do carioca no fim de agosto beneficia diretamente produtores que postergaram a venda aguardando melhora de cotação, estratégia comum entre agricultores com capacidade de armazenagem própria. Para os que já comercializaram o produto durante a baixa do mês, a virada chega tarde. Atacadistas e beneficiadores que operaram com estoques enxutos ao longo de agosto podem retomar compras com preços em recuperação, o que tende a sustentar a alta no curto prazo. Varejistas e redes de supermercado, por sua vez, monitoram o comportamento do carioca com atenção especial dado seu peso na cesta básica e no índice de preços ao consumidor.
O feijão-preto sustentado oferece maior previsibilidade para cooperativas do Sul, que negociam contratos de entrega com supermercados regionais. A estabilidade de preço reduz o risco de margem para beneficiadores e facilita o planejamento de compra do varejo. Entidades como a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA) e representações de agricultores familiares acompanham o mercado de feijão como termômetro de pressão inflacionária na alimentação básica.
O calendário agrícola indica que, a partir de setembro e outubro, o mercado começa a precificar as expectativas para a primeira safra 2025/26, cujo plantio se inicia nas regiões mais quentes do Centro-Oeste. Condições climáticas associadas ao padrão La Niña — que meteorologistas acompanham para o período — podem influenciar a decisão de área plantada e, consequentemente, a oferta futura. A próxima atualização do Cepea e o levantamento de safra da Conab, previsto para setembro, devem oferecer sinais mais claros sobre o equilíbrio entre oferta e demanda para o fechamento do ano.