Ormuz fechado de novo: por que a guerra no Golfo não garante alta para soja e milho

Mercado · Por Vinicius Vasconcelos · 13 de julho de 2026

Com o Irã voltando a fechar o Estreito de Ormuz e o Brent perto de US$ 78, o choque chega ao agro em camadas — petróleo, dólar, fertilizante e frete antes do preço da saca. É volatilidade, não tendência.

Ormuz fechado de novo: por que a guerra no Golfo não garante alta para soja e milho

O produtor brasileiro acordou nesta segunda-feira com o noticiário repetindo uma cena conhecida. O Irã declarou o Estreito de Ormuz fechado "até segunda ordem" depois do quarto ataque norte-americano em uma semana — resposta de Washington ao ataque iraniano a um navio porta-contêineres com bandeira de Chipre. O Brent reagiu na hora: subiu cerca de 3,1% no pregão asiático, para US$ 78,38 o barril, segundo dados de mercado. Por Ormuz passa perto de 20% de todo o petróleo e gás negociado no mundo.

Nas conversas de cooperativa, a leitura é sempre a mesma: guerra lá fora é preço melhor aqui dentro. E é aqui que precisamos ser honestos com quem vive de plantar. O conflito de fato eleva o prêmio de risco nas commodities, mas o caminho até a saca de soja e a de milho negociadas no interior do país passa por várias estações antes de virar preço no físico. Quem confunde essa travessia com uma seta única — sobe ou cai — costuma pagar caro pela pressa.

A transmissão vem em camadas. Primeiro mexe com petróleo e dólar. Depois com o custo do insumo e do frete. Só então, e de forma indireta, chega à formação de preço no grão. Ignorar essa ordem é o erro mais comum da temporada.

Na soja, o elo é o óleo — mas não é ele que manda hoje

Na soja, o vínculo mais forte com a energia não está no grão, está no óleo. Petróleo mais caro sustenta a atratividade dos óleos vegetais e mexe com o complexo inteiro. Não à toa, o óleo de soja em Chicago subiu para 71,39 centavos de dólar por libra-peso na semana passada, acompanhando a alta do petróleo.

Só que a soja está nos melhores preços do ano por outro motivo — e essa distinção é o coração desta coluna. O contrato de primeiro vencimento na Bolsa de Chicago chegou a US$ 11,96 por bushel no dia 7 de julho, maior valor desde maio, numa alta de quase 8% em cinco pregões. O combustível dessa disparada não foi Ormuz: foi o clima seco nas lavouras dos Estados Unidos e a volta da China às compras do grão americano. No Brasil, com o dólar entre R$ 5,15 e R$ 5,20 e prêmios acima de um dólar por bushel nos portos, a saca alcançou cerca de R$ 122 nas praças gaúchas.

Ou seja: a soja subiu, mas não por causa da guerra. Ela reage conforme o mercado reprecifica clima, China, câmbio e petróleo, tudo ao mesmo tempo. E a estrada corre nos dois sentidos — quando o mercado aposta em descompressão do conflito, vem a correção, com realização de lucros em Chicago e pressão que respinga no físico brasileiro. A soja não sobe no automático porque há guerra. Ela sobe, ou cai, conforme o humor do dia.

No milho, o golpe não vem pelo preço — vem pela conta

No milho a história é outra, e mais delicada, porque o Brasil não vende o cereal para qualquer um: o Irã é o principal comprador do milho brasileiro. No ano passado, foram cerca de 9 milhões de toneladas embarcadas para o país persa, aproximadamente um quinto de toda a nossa exportação. Quando o comprador número um está em guerra e com seus portos sob risco, o alerta é legítimo.

Mas o calendário dá uma trégua ao produtor no curto prazo. A exportação brasileira de milho se concentra no segundo semestre, quando a safrinha entra no mercado, e por isso o efeito imediato sobre os embarques para o Oriente Médio é hoje quase nulo. O risco está adiante: na segunda metade do ano, com o pico de embarque, uma escalada prolongada pode travar contrato e pressionar para baixo o preço recebido pelo produtor. Enquanto isso, a safra de verão robusta e uma safrinha volumosa mantêm o mercado interno abastecido — a saca girou em torno de R$ 60 no início de julho, com Rondonópolis perto de R$ 56 e Santos entre R$ 64 e R$ 68.

O golpe mais certeiro no milho, no entanto, não vem pela cotação. Vem pela conta de produção — e ele tem nome: fertilizante.

O fertilizante é onde a guerra realmente dói

Aqui está a parte que o produtor sente no caixa antes de sentir em Chicago. O Brasil compra do Irã cerca de 40% da ureia que consome, e perto de 20% do fósforo que chega às lavouras passa justamente pelo Estreito de Ormuz. Quando aquele corredor trava, é o custo da próxima safra que sobe.

O histórico recente é eloquente. A ureia granulada, que rondava US$ 475 a US$ 485 por tonelada no fim de fevereiro, disparou para perto de US$ 800 em abril, praticamente o dobro do patamar do fim de 2025. No início de julho houve alívio — com demanda enfraquecida, as cotações recuaram para perto do nível pré-conflito. Mas atenção ao detalhe que importa: mesmo depois da queda, os preços seguem cerca de 53% acima do que eram antes da guerra, segundo levantamento do setor. E, com Ormuz fechado de novo, todo esse alívio está sob ameaça.

É essa a perversidade da conta do milho: o produtor pode ver o preço da saca andar de lado e, ao mesmo tempo, ver o custo do próximo plantio subir. Preço parado em cima, custo pressionado embaixo — a margem é esmagada no meio.

O que a guerra realmente entrega

Aqui vai a opinião, sem meio-termo. A crise em Ormuz funciona muito mais como amplificador de volatilidade do que como garantia de alta para o agro brasileiro. Ela pode abrir uma janela de valorização momentânea — a soja desta semana que o diga —, mas também aumenta a incerteza, trava negócio e piora a relação de troca do produtor, sobretudo quando fertilizante e energia sobem mais rápido do que o grão.

O risco de verdade para o Brasil não é o preço da commodity isolado. É a combinação de preço instável, custo pressionado e margem apertada. O grão é só uma perna do banquinho: o produtor também compra insumo, paga frete, monta hedge e sente qualquer choque global direto no bolso. Um choque que sobe a cotação e o custo na mesma proporção não é oportunidade — é ruído caro.

Mais do que provocar alta linear nas commodities, a crise no Oriente Médio joga o agro brasileiro para um território conhecido e perigoso: o da volatilidade, em que o produtor pode até ver preço melhor no papel, mas continuar perdendo margem no caixa.

Por isso a conversa que interessa não é "vai subir ou vai cair". É o que fazer no meio da instabilidade: travar parte da venda quando o preço aparece, proteger o custo do fertilizante antes que Ormuz decida por você, e não apostar a safra inteira em um único humor de mercado. A guerra no Golfo não cria uma tendência única para soja e milho. Ela cobra estratégia — e cobra juros de quem vende no escuro.