Mandioca atinge maior preço médio semanal desde maio, aponta Cepea
Mercado · Por Redação ConectaAgro · 20 de julho de 2026
Avanço do plantio e menor disponibilidade de lavouras de segundo ciclo pressionam oferta abaixo da demanda industrial, segundo pesquisadores do Cepea.

O preço médio semanal da mandioca alcançou o maior patamar desde maio, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). O movimento reflete um descompasso entre oferta e demanda que vem se acentuando nas últimas semanas, com o avanço do ciclo de plantio reduzindo a disponibilidade de raízes prontas para colheita em diversas regiões produtoras do país.
O dado importa porque a mandioca é matéria-prima central para dois segmentos industriais de peso no Brasil: o de fécula — insumo para alimentos processados, papelão ondulado e têxteis — e o de farinha, base da alimentação de milhões de brasileiros, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Quando o preço da raiz sobe de forma sustentada, a pressão se transmite diretamente ao custo de processamento das fecularias e farinheiras, podendo impactar margens e, em casos extremos, o preço ao consumidor final.
Oferta comprimida entre ciclos de cultivo
O fator imediato por trás da alta é estrutural ao calendário da cultura. Pesquisadores do Cepea apontam que o avanço do plantio — que mobiliza mão de obra e maquinário — coincide com a menor disponibilidade de lavouras de segundo ciclo em algumas regiões. A mandioca é uma cultura de ciclo longo, com colheita que varia de 12 a 24 meses dependendo da variedade e da finalidade (mesa ou indústria), o que torna a reposição de oferta mais lenta do que em culturas anuais como soja e milho. Esse intervalo entre o esgotamento das lavouras maduras e a entrada das novas áreas em colheita cria janelas de aperto que se repetem sazonalmente, mas que podem ser amplificadas por variações climáticas ou decisões de plantio dos produtores.
A alta registrada agora, com o preço médio semanal no nível mais elevado desde maio, indica que o mercado entrou em uma dessas janelas de aperto. O período entre maio e o momento atual representa meses de pressão acumulada sobre o processamento industrial, que opera com estoques reguladores limitados dada a natureza perecível da raiz in natura. Diferentemente de grãos, a mandioca não pode ser armazenada por longos períodos sem processamento, o que reduz a capacidade dos compradores de se proteger de picos de preço via estocagem.
Demanda industrial sustentada pressiona o mercado
O lado da demanda não dá sinais de recuo. O setor de fécula mantém operação aquecida, impulsionado tanto pelo mercado interno quanto por exportações de amido modificado, segmento em que o Brasil ocupa posição relevante. As farinheiras, por sua vez, operam pressionadas pela demanda constante de um produto que integra a cesta básica. Esse conjunto de fatores — oferta sazonal restrita de um lado, demanda industrial inelástica de outro — cria o ambiente propício para a sustentação ou continuidade da alta de preços no curto prazo, conforme sinalizado pelo Cepea.
Atores e impactos ao longo da cadeia
Para o produtor de mandioca, o cenário atual é positivo: preços em alta melhoram a rentabilidade da atividade e podem estimular a expansão de área nas próximas janelas de plantio. O Brasil cultiva mandioca em praticamente todos os estados, mas os maiores volumes industriais se concentram no Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, onde fecularias de grande porte definem os preços de referência regionais. Produtores que têm lavouras prontas para colheita neste momento estão em posição favorável de negociação com a indústria.
Do outro lado, fecularias e farinheiras absorvem o custo mais alto da matéria-prima em um momento em que a capacidade de repasse ao cliente final depende do poder de negociação com cada segmento comprador. Indústrias de alimentos com contratos de fornecimento de amido já fechados podem ter dificuldade em repassar a alta imediatamente, comprimindo margens no curto prazo. O setor de farinha, por operar com margens historicamente mais estreitas e atender a um público sensível a preço, tende a sentir o aperto de forma mais aguda.
A dinâmica atual também chama atenção para a ausência de um mecanismo robusto de formação de preços transparente e público para a mandioca industrial no Brasil — diferentemente do que existe para soja, milho e cana. O Cepea é, na prática, a principal referência de mercado disponível, o que reforça o peso dos seus levantamentos semanais para as decisões de compra e venda ao longo da cadeia.
O que vem a seguir
O comportamento dos preços nas próximas semanas dependerá do ritmo de conclusão do plantio nas principais regiões produtoras e da velocidade com que lavouras de ciclo mais curto entram em ponto de colheita. Condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento das plantas recém-estabelecidas podem antecipar a normalização da oferta, enquanto veranicos ou excesso de chuvas tendem a prolongar o aperto. O Cepea deve atualizar os indicadores semanais, e o mercado acompanhará de perto qualquer sinal de virada na disponibilidade regional de raiz. Para os produtores que ainda têm área a colher, o momento recomenda atenção ao calendário de entrega e à negociação com a indústria, dado o patamar favorável de preços.