Demanda firme e El Niño 2026/27 pressionam preços da soja no mercado interno

Mercado · Por Redação ConectaAgro · 31 de agosto de 2026

Combinação de demanda global robusta, clima irregular no Hemisfério Norte e incertezas sobre o El Niño sustenta alta das cotações da oleaginosa, segundo o Cepea.

Os preços da soja no mercado brasileiro seguem em trajetória de alta sustentada pela confluência de três vetores: demanda global firme, condições climáticas irregulares no Hemisfério Norte e incertezas crescentes sobre os possíveis efeitos do El Niño sobre a safra 2026/27. A avaliação é do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), referência nacional no monitoramento de preços agrícolas.

O movimento tem impacto direto sobre produtores, tradings e processadores. Para o agricultor com soja em estoque ou ainda a comercializar, o cenário oferece janela favorável de realização. Para a indústria de esmagamento e os exportadores, a alta das cotações comprime margens e exige maior precisão na gestão de contratos. O mercado de farelo e óleo de soja, derivados diretamente ligados à cotação do grão, também responde ao movimento.

Demanda global como piso de sustentação

A demanda firme citada pelo Cepea reflete um padrão que vem se consolidando ao longo dos últimos ciclos agrícolas: a China, maior importadora mundial de soja, mantém ritmo de compras elevado para abastecer seu complexo de proteína animal, enquanto outros destinos — como países do Sudeste Asiático e o mercado europeu de biodiesel — também sustentam fluxo de aquisições. O Brasil, como maior exportador global da oleaginosa, é o principal beneficiário direto desse apetite externo, especialmente no segundo semestre, quando a janela de exportação da safra sul-americana está em plena atividade.

As condições climáticas irregulares no Hemisfério Norte adicionam um componente de prêmio de risco às cotações. Nos Estados Unidos, principal produtor do mundo, qualquer desvio hídrico ou térmico durante os meses críticos de desenvolvimento da cultura — entre junho e agosto — é imediatamente precificado nos contratos futuros da Bolsa de Chicago (CBOT/CME). Esse repasse chega ao mercado doméstico via paridade de exportação, amplificado ou atenuado pela variação do câmbio (PTAX) e pelo diferencial de base nos portos brasileiros.

El Niño e a safra 2026/27: incerteza que já move o mercado

O componente mais prospectivo — e potencialmente mais disruptivo — identificado pelo Cepea é a incerteza sobre os efeitos do El Niño na safra brasileira 2026/27. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico equatorial, historicamente altera o regime de chuvas no Brasil Central e no Sul do país durante os meses de plantio e desenvolvimento da soja, que ocorrem entre outubro e março. Em ciclos de El Niño moderado a forte, o Centro-Oeste tende a registrar déficit hídrico no início da safra, enquanto o Sul pode sofrer excesso de chuvas — dois extremos prejudiciais à produtividade.

O fato de o mercado já precificar esse risco com meses de antecedência revela a maturidade dos agentes em antecipar cenários. Tradings internacionais, fundos especulativos e cooperativas monitoram os modelos climáticos do NOAA e do INMET para ajustar posições compradas ou vendidas. No Brasil, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), gerido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) com suporte da Embrapa, é a ferramenta oficial que orienta produtores sobre janelas de plantio seguras — e tende a ser revisitado com atenção redobrada em anos de El Niño.

Atores e posicionamento de mercado

O cenário descrito pelo Cepea favorece produtores que ainda detêm estoques da safra 2024/25 e postergaram vendas aguardando melhora de preços — estratégia de retenção que, quando bem executada, captura exatamente esse tipo de movimento de alta por fundamentos. Por outro lado, cooperativas e tradings que assumiram posições vendidas antecipadas (contratos a fixar ou CPRs com preço a definir) enfrentam pressão de recomposição de margens. A indústria de esmagamento, que compra grão para produzir farelo e óleo, monitora a relação entre o custo do grão e o preço dos derivados no mercado externo para calibrar o ritmo de processamento.

Entidades como a Aprosoja Brasil e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) acompanham de perto a evolução das cotações e do ritmo de embarques. Em anos de incerteza climática prospectiva, o comportamento do produtor tende a ser mais conservador na comercialização antecipada da safra seguinte, o que pode reduzir o volume de contratos de soja nova negociados nos próximos meses — efeito colateral que o próprio mercado já começa a calcular.

Do lado da política agrícola, o Plano Safra 2025/26 — em vigor — definiu as condições de crédito e seguro rural que balizam as decisões de plantio para a próxima temporada. Se as projeções climáticas de El Niño se confirmarem com intensidade, a demanda por instrumentos de proteção como o Proagro e o seguro rural subvencionado deve crescer, pressionando o orçamento do programa e exigindo resposta do MAPA e do Ministério da Fazenda.

O calendário dos próximos meses será decisivo para calibrar a magnitude do movimento de preços. As projeções mensais da Conab para oferta e demanda de soja, os relatórios do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) — especialmente o World Agricultural Supply and Demand Estimates (WASDE) — e as atualizações dos modelos climáticos sobre a intensidade do El Niño serão os principais gatilhos de volatilidade. O início do plantio da safra 2025/26 nos estados do Centro-Oeste, previsto para outubro, também funcionará como termômetro: a velocidade de semeadura e as condições de umidade do solo nesse período vão confirmar ou desafiar o prêmio de risco que o mercado já embutiu nas cotações atuais.