Preço do ovo atinge menor patamar real para julho desde 2019, aponta Cepea

Mercado · Por Redação ConectaAgro · 31 de julho de 2026

Desvalorização intensa nas últimas semanas derrubou a média parcial de julho ao nível mais baixo em termos reais para o mês em seis anos, segundo o Cepea.

Preço do ovo atinge menor patamar real para julho desde 2019, aponta Cepea

O mercado de ovos registrou em julho de 2025 o menor patamar real de preços para o mês desde 2019, segundo levantamento parcial do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). A média apurada até o dia 29 de julho nas regiões monitoradas pelo instituto consolidou uma sequência de quedas que se intensificou nas últimas semanas do mês, pressionando as cotações a um nível historicamente baixo em termos deflacionados.

O resultado impõe pressão direta sobre a rentabilidade dos avicultores de postura, segmento que opera com custos fixos elevados — ração à base de milho e farelo de soja, mão de obra e energia — e que depende de preços mínimos para cobrir o ciclo de produção, que pode superar 70 semanas entre alojamento e descarte das matrizes. Uma sequência prolongada de preços abaixo do custo de produção tende a forçar o abate antecipado de lotes e reduzir o alojamento de novos pintinhos, o que pode gerar desequilíbrio de oferta nos meses seguintes.

Ciclo de baixa em contexto de oferta ampliada

O comportamento dos preços em julho não é isolado. O mercado de ovos no Brasil apresenta sazonalidade conhecida: o segundo semestre costuma concentrar demanda mais firme, especialmente a partir de agosto e setembro, com a retomada das atividades escolares e o avanço do inverno, período em que o consumo de proteína animal tende a crescer. O fato de os preços estarem no menor nível real para julho desde 2019 — ano que antecedeu a pandemia e o ciclo de alta das commodities — indica que a oferta corrente está sobrepondo os fatores sazonais de sustentação da demanda.

O setor avícola de postura passou por forte expansão nos últimos anos, impulsionado pelo crescimento do consumo interno de ovos — que o Brasil Egg, associação do setor, e dados do IBGE vinham apontando em trajetória ascendente — e por margens favoráveis durante o ciclo de alta de preços entre 2020 e 2022. Esse movimento expansionista ampliou o plantel nacional de galinhas poedeiras, e o ajuste entre oferta e demanda tende a ser lento, dado o ciclo biológico longo da ave. O resultado é um excesso de oferta que o mercado ainda não absorveu.

Pressão de custo e compressão de margem

A queda nos preços ocorre em um ambiente de custos ainda pressionados. O milho, principal insumo na formulação da ração para poedeiras, manteve-se em patamares elevados ao longo de 2024 e início de 2025, ainda que a safra 2024/25 tenha projetado volumes recordes, com algum alívio mais recente nas cotações. O farelo de soja, segundo componente mais relevante da dieta das aves, também opera em nível que exige preços de venda mais altos para garantir equilíbrio financeiro ao produtor. A combinação de receita em queda e custo ainda elevado comprime severamente a margem do granjeiro.

Segundo o Cepea, as cotações nas regiões acompanhadas pelo instituto recuaram de forma consistente ao longo das últimas semanas de julho. O instituto monitora as principais praças produtoras do país, o que confere representatividade nacional ao indicador. A média parcial do mês, deflacionada para valores reais, ficou abaixo de todos os registros de julho desde 2019 — marco que serve de referência por ser o último período pré-pandemia com dinâmica de mercado considerada normalizada.

Quem sente mais o impacto

Os granjeiros independentes de médio e pequeno porte são os mais vulneráveis neste cenário. Sem contratos de fornecimento de longo prazo com redes varejistas ou indústrias de processamento, vendem no mercado spot e ficam expostos à volatilidade diária das cotações. Grandes integrações verticalizadas — que controlam desde a produção de pintinhos até a distribuição — têm maior capacidade de absorver períodos de baixa, mas também sofrem compressão de margens. O varejo, por outro lado, tende a repassar a queda ao consumidor com defasagem, capturando temporariamente parte da diferença entre o preço pago ao produtor e o praticado nas gôndolas.

Não há, no material disponível, declarações de representantes do setor ou de órgãos públicos sobre medidas de suporte ao segmento. O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e entidades como a União Brasileira de Avicultura (UBABEF) e associações estaduais de avicultores são os atores naturais de uma eventual resposta institucional, mas qualquer movimentação nesse sentido depende da persistência e da profundidade da crise de preços.

O que esperar nos próximos meses

O segundo semestre carrega expectativa de recuperação sazonal das cotações, com agosto e setembro historicamente marcando o início de uma demanda mais robusta. Se a oferta não recuar — via abate antecipado de lotes ou redução do alojamento de novas aves — a pressão sobre os preços pode se prolongar além do padrão histórico. O acompanhamento das cotações pelo Cepea nas próximas semanas será determinante para avaliar se o piso de julho representa um fundo de ciclo ou o início de um ajuste estrutural mais longo no setor. A evolução do custo do milho, com a colheita da segunda safra 2024/25 em fase de comercialização, também influenciará a equação de rentabilidade dos granjeiros até o final do ano.