Milho sobe quase 6% em agosto mesmo com safra recorde no Brasil

Mercado · Por Redação ConectaAgro · 31 de agosto de 2026

Preços do milho avançam no mercado interno apesar do fim da colheita da segunda safra e de estimativas de produção recorde, segundo o Cepea.

O indicador de preços do milho calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq) registrou alta de quase 6% na parcial do mês de agosto, movimento que surpreende pelo contexto em que ocorre: a colheita da segunda safra — a maior do ano em volume — está em fase final, e as estimativas de produção apontam para um ciclo recorde. Mesmo assim, compradores e vendedores seguem ajustando posições em um mercado que resiste à pressão baixista esperada para o período.

A valorização contraria a lógica sazonal clássica, em que o pico de oferta da safrinha pressiona os preços para baixo entre julho e agosto. O fato de o indicador Cepea avançar nesse janela específica sinaliza que fatores estruturais e de demanda estão sobrepondo a pressão da colheita — e isso tem implicações diretas para produtores que ainda seguram estoques, para a indústria de ração e para as tradings que operam no mercado spot.

Paradoxo entre oferta recorde e preço em alta

Em anos de safra recorde, o comportamento esperado dos preços internos é de recuo, especialmente quando a colheita da segunda safra — que responde por cerca de 70% a 75% da produção nacional de milho — entra em fase final e aumenta a disponibilidade física do grão. O ciclo 2024/25 se encaminha exatamente para esse cenário de volumes elevados, com projeções de órgãos como a Conab e o USDA apontando produção brasileira acima das médias históricas recentes. Apesar disso, segundo o Cepea, compradores e vendedores não chegaram a um equilíbrio que derrubasse as cotações — pelo contrário.

Esse descolamento entre fundamentos de oferta e comportamento de preço pode refletir ao menos três dinâmicas simultâneas: retenção de produto por parte de produtores que aguardam melhora adicional nas cotações, demanda firme da indústria de proteína animal — que consome milho como principal insumo — e eventual influência do câmbio, já que um dólar mais elevado frente ao real torna a exportação do grão mais atrativa e reduz o volume disponível para o mercado doméstico. Nenhum desses vetores pode ser isolado como causa única com base nas informações disponíveis, mas o conjunto explica a resistência das cotações.

O milho é o insumo de maior peso no custo de produção de aves e suínos, e uma alta de quase 6% em menos de um mês representa pressão relevante sobre as margens de integradores e produtores de proteína animal. Para o setor de etanol de milho — que ganhou escala significativa no Centro-Oeste nos últimos anos — a elevação também comprime a rentabilidade das usinas que não têm produção própria do grão.

Posicionamento de mercado e comportamento dos agentes

De acordo com o Cepea, de modo geral compradores e vendedores seguem ajustando posições — descrição que, na linguagem do mercado de grãos, indica ausência de consenso sobre o patamar justo de preço. Vendedores, possivelmente produtores e cooperativas com estoques remanescentes da safrinha, tendem a sustentar ofertas mais altas diante da alta recente. Compradores, por sua vez, resistem a pagar prêmios elevados em um momento em que a colheita ainda libera volume para o mercado. Esse cabo de guerra, quando resulta em alta de preço, costuma indicar que o poder de barganha está temporariamente com quem vende.

No mercado externo, o milho brasileiro compete com os Estados Unidos — cuja safra de verão avança — e com a Argentina, que também colheu volumes expressivos em 2024/25. A paridade de exportação, influenciada pela taxa de câmbio e pelos fretes marítimos, funciona como piso para as cotações internas nas principais praças do Centro-Oeste e do Paraná. Se o dólar se mantiver em patamares elevados, a pressão exportadora pode continuar sustentando os preços domésticos mesmo com oferta abundante.

O que vem a seguir

O comportamento do indicador Cepea nas próximas semanas dependerá do ritmo de comercialização da safrinha ainda não vendida, da demanda da indústria de ração no período de entressafra do frango e do suíno, e da evolução do câmbio. A Conab deve atualizar suas projeções para a safra 2024/25 em boletim mensal, o que pode reposicionar as expectativas do mercado sobre o volume total disponível. Produtores que ainda seguram estoque precisarão avaliar o custo de oportunidade de aguardar: armazenagem tem custo, e o histórico mostra que altas de agosto nem sempre se sustentam quando a comercialização acelera em setembro.