Novo ciclone e massa polar mantêm frio rigoroso no Sul e Centro-Oeste até julho
Clima · Por Redação ConectaAgro · 24 de junho de 2026
Sistema de baixa pressão em formação no Cone Sul combina com ar polar e ameaça lavouras com geada, chuvas de até 100 mm e rajadas de 75 km/h entre 27 de junho e 2 de julho.

A virada para julho chega com dupla ameaça climática ao agronegócio brasileiro. Um novo ciclone extratropical em formação na fronteira entre Argentina, Paraguai e Bolívia, combinado com o avanço de uma massa de ar polar, deve provocar tempestades, chuvas de até 100 mm, rajadas de vento de 75 km/h e temperaturas negativas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste entre os dias 27 de junho e 2 de julho, segundo projeções da Meteored.
O evento importa porque coincide com um período crítico para culturas de inverno — trigo, cevada e aveia — em pleno desenvolvimento nas lavouras do Paraná e do Rio Grande do Sul, além de ameaçar pastagens e pomares nas áreas de serra de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Geadas em madrugadas de julho estão entre os principais fatores de perda de produtividade no trigo gaúcho e paranaense, e a combinação de frio intenso com chuvas volumosas eleva o risco de doenças fúngicas nas lavouras.
Como o sistema climático se desenvolve dia a dia
O processo começa ainda neste fim de semana. Uma frente fria já em deslocamento pelo país inaugura o ciclo com chuvas e queda de temperatura do Sul ao Norte do Brasil, abrindo caminho para o sistema mais intenso que vem a seguir. Entre sábado (27) e domingo (28), o novo sistema de baixa pressão começa a ganhar força na área de fronteira do Cone Sul. Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul passam a receber as primeiras pancadas de chuva, conforme a Meteored.
Segunda (29) e terça-feira (30) concentram o maior risco de tempestades, com volumes que podem alcançar 50 mm em uma hora e acumulados totais próximos a 100 mm em pontos específicos. As regiões costeiras ficam expostas a rajadas de até 75 km/h. São Paulo também entra na área de influência do sistema nesses dois dias. Paralelamente, a massa de ar polar começa a se mover em direção ao Brasil na segunda-feira, mas seus efeitos mais concretos chegam na terça, quando as temperaturas caem abaixo de 10°C no Sul e no sul do Mato Grosso do Sul, segundo a Meteored.
Nos dias 1° e 2 de julho, o ar polar atinge sua maior influência sobre o território. As projeções da Meteored indicam temperaturas negativas nas madrugadas e manhãs do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, sobretudo nas áreas de serra — exatamente as regiões com maior concentração de pomicultura, viticultura e lavouras de trigo. Ainda que o frio previsto para o início de julho seja menos intenso do que o registrado na semana anterior, as temperaturas devem seguir abaixo da média histórica na região Sul por mais alguns dias.
Risco de geada em janela sensível para o trigo e a fruticultura
O calendário agrícola torna o evento particularmente preocupante. O trigo cultivado no Paraná e no Rio Grande do Sul — os dois maiores produtores nacionais — atravessa em julho estágios que vão do perfilhamento ao espigamento em diferentes talhões, dependendo da época de semeadura. Geadas nessa janela podem causar danos irreversíveis às espigas em formação. A fruticultura de clima temperado no planalto catarinense e gaúcho — maçã, pera e uva — também é vulnerável a temperaturas negativas fora do período de dormência.
As chuvas volumosas previstas para o fim de semana e início da semana seguinte trazem um risco adicional: a saturação do solo dificulta operações de manejo e colheita de culturas tardias, além de favorecer o desenvolvimento de brusone e outras doenças fúngicas em cereais de inverno. Produtores que ainda aguardavam janela seca para aplicações de fungicidas podem ter a operação comprometida pelas rajadas de vento de até 75 km/h, que inviabilizam a pulverização aérea e terrestre com segurança.
Atores e impactos na cadeia
Produtores de trigo do Paraná e do Rio Grande do Sul são os mais diretamente expostos ao evento. Cooperativas e tradings que operam com grãos de inverno acompanham o desenvolvimento do sistema porque perdas de qualidade por geada ou excesso de umidade afetam o padrão de recebimento e o preço pago ao produtor. Seguradoras agrícolas e o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), gerido pelo Ministério da Agricultura (MAPA), tendem a registrar aumento de acionamentos em períodos de geada severa — um custo que pressiona o orçamento do programa.
A pecuária de corte e leiteira no Sul também sente os efeitos: temperaturas negativas elevam o gasto energético dos animais, reduzem a produção de leite e exigem manejo adicional de confinamento. Frigoríficos e laticínios da região monitoram o impacto sobre a oferta de animais e volume de matéria-prima nas semanas seguintes a eventos de frio intenso. No Mato Grosso do Sul, a queda térmica prevista para o sul do estado pode afetar pastagens de braquiária em estágio de dormência precoce.
O setor elétrico e o de logística também reagem a eventos desse tipo: rodovias nas serras gaúcha e catarinense ficam sujeitas a interdições por gelo, o que atrasa o escoamento de grãos e insumos. Portos do Sul, especialmente Paranaguá e Rio Grande, podem registrar restrições operacionais com ventos acima de 60 km/h, impactando o fluxo de exportações.
Próximos passos e monitoramento
A evolução do ciclone extratropical e da massa polar deve ser acompanhada diariamente pelos serviços de meteorologia agrícola do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e da EMBRAPA Clima Temperado, que emitem alertas específicos para geada nas regiões produtoras. Produtores com lavouras de trigo em estágios vulneráveis devem acionar seus consultores agronômicos para avaliar medidas preventivas, como a antecipação de aplicações de fungicidas antes da janela de chuva. Após o dia 2 de julho, as projeções da Meteored indicam arrefecimento gradual do sistema, mas as temperaturas devem permanecer abaixo da média histórica no Sul por mais alguns dias — sinalizando que o inverno de 2025 segue rigoroso e longe de encerrar seus episódios mais severos.