Safra recorde, lucro em queda: o novo desafio do produtor rural

Direito Agrário · Por Redação Conecta Agro · 30 de junho de 2026

Mesmo com uma das maiores colheitas da história, muitos produtores rurais enfrentam dificuldades financeiras. A queda no preço das commodities, o aumento dos custos e o crédito mais caro mudaram a dinâmica do agronegócio e ampliaram a importância do planejamento jurídico para preservar a atividade rural.

Safra recorde, lucro em queda: o novo desafio do produtor rural

Coluna Especial | Direito Agrário Por Dr. Milton Pedreira Júnior, advogado especialista em Direito Agrário

A colheitadeira cumpriu sua missão. A conta bancária, não.

O caminhão deixa a lavoura carregado de soja. A produtividade foi excelente. A tecnologia funcionou. O clima colaborou. Os relatórios oficiais celebram mais um recorde da agricultura brasileira. Mas, poucos quilômetros dali, dentro do escritório da fazenda, a realidade é outra: boletos vencendo, parcelas de crédito rural pressionando o caixa, bancos cobrando renegociações e produtores descobrindo que colher mais não significou ganhar mais. À primeira vista, parece um contrassenso. Mas não é. Talvez este seja o maior paradoxo vivido pelo agronegócio brasileiro na atualidade: o país registra uma das maiores produções de grãos da história, enquanto milhares de propriedades enfrentam dificuldades financeiras. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos 2025/26 deverá alcançar aproximadamente 358,6 milhões de toneladas, o maior volume já registrado no país. A soja continua liderando esse crescimento, impulsionada pela expansão de área cultivada e pelos ganhos de produtividade. (Serviços e Informações do Brasil) O problema é que produtividade e rentabilidade deixaram de caminhar, necessariamente, lado a lado.

O novo desafio do produtor rural não está apenas na lavoura

Durante muitos anos, a maior preocupação do produtor era climática.

Hoje, esses riscos continuam existindo. Mas uma nova variável ganhou protagonismo: O risco financeiro. Na avaliação do advogado especialista em Direito Agrário Dr. Pedreira, o agronegócio entrou em uma fase em que produzir bem já não garante equilíbrio econômico. "Existe uma mudança estrutural acontecendo. Durante muito tempo, o produtor acreditou que uma boa safra resolveria praticamente qualquer dificuldade financeira. Hoje isso não é mais suficiente. O resultado da fazenda depende tanto da gestão financeira e jurídica quanto da produtividade." Essa mudança altera completamente a forma como o produtor precisa administrar sua atividade.

O que aconteceu com a rentabilidade?

Entre 2020 e 2022, o agronegócio viveu um período extraordinário. Os preços internacionais das commodities atingiram níveis historicamente elevados. Ao mesmo tempo, houve forte valorização das exportações brasileiras. Muitos produtores ampliaram investimentos. Compraram máquinas. Expandiram área. Modernizaram estruturas. Assumiram financiamentos de longo prazo. Naquele cenário, fazia sentido. O problema começou quando o ciclo virou. Os preços da soja recuaram. As margens diminuíram. O crédito ficou mais caro. Os juros aumentaram. Os custos permaneceram elevados por mais tempo do que muitos esperavam. O resultado foi uma compressão significativa da margem operacional das propriedades. Em outras palavras: A lavoura produzia. Mas o caixa deixava de responder na mesma velocidade.

Produzir mais não significa ganhar mais

Existe uma diferença importante entre produção e rentabilidade. A produção mede volume. A rentabilidade mede resultado financeiro. E são coisas completamente diferentes. Imagine duas fazendas. As duas colhem 70 sacas por hectare. Uma obtém lucro. Outra termina o ano no vermelho. Por quê? Porque o lucro depende de uma série de fatores:

Hoje, muitas propriedades produzem muito bem. Mas carregam uma estrutura financeira incompatível com a nova realidade de mercado.

O crédito rural mudou de papel

Historicamente, o crédito rural foi criado para estimular a produção. Ele continua sendo uma ferramenta essencial para financiar custeio, investimento e comercialização. Entretanto, o ambiente econômico mudou. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, dados recentes mostram que boa parte das operações tem sido contratada fora das linhas subsidiadas do Plano Safra, em modalidades com taxas de mercado, aumentando o custo financeiro para o produtor. (Aprosoja MS)

O crédito continua sendo indispensável. O problema começa quando o fluxo financeiro da propriedade deixa de acompanhar o cronograma de vencimentos das operações. É exatamente nesse ponto que muitos produtores passam a enfrentar dificuldades.

Dr. Milton Pedreira Júnior,

O problema deixou de ser apenas agrícola

Existe uma percepção equivocada de que dificuldades financeiras são consequência exclusiva de quebra de safra. Nem sempre. Hoje existem propriedades altamente produtivas enfrentando sérios problemas de caixa. Isso acontece porque diversos fatores passaram a atuar simultaneamente:

Onde entra o Direito Agrário?

É justamente aqui que começa um dos maiores equívocos. Ainda existe quem associe o Direito Agrário apenas a disputas de terra. Essa visão ficou no passado. Hoje, o Direito Agrário moderno atua diretamente na gestão econômica da atividade rural. Segundo Dr. Pedreira, "O advogado especializado não atua apenas quando o problema já aconteceu. Ele participa da estratégia de preservação da atividade rural." Isso inclui:

Em outras palavras: O Direito passou a fazer parte da gestão da fazenda.

A importância da prorrogação das operações

Um dos instrumentos previstos no sistema de crédito rural é a possibilidade de prorrogação de determinadas operações quando presentes os requisitos estabelecidos pelo Manual de Crédito Rural (MCR). Essa não é uma liberalidade das instituições financeiras. É um mecanismo previsto na regulamentação do crédito rural para determinadas situações, especialmente quando fatores alheios à vontade do produtor comprometem sua capacidade temporária de pagamento. Cada caso exige análise técnica. Não existe solução automática. Mas conhecer esses instrumentos faz enorme diferença. Segundo Dr. Pedreira, "Muitos produtores desconhecem direitos previstos na própria regulamentação do crédito rural. Informação, nesse momento, representa capacidade de preservar a atividade."

Gestão jurídica tornou-se ferramenta de gestão rural

Durante muitos anos, planejamento agrícola significava:

Hoje esse planejamento precisa incorporar outras variáveis. Fluxo financeiro. Governança. Compliance. Estratégia contratual. Segurança jurídica. Gestão do passivo. Isso não substitui a boa gestão agrícola. Ela a complementa.

O agro mudou — e o produtor também precisa mudar

A agricultura brasileira tornou-se uma das mais eficientes do planeta. A tecnologia evoluiu. As máquinas evoluíram. A genética evoluiu. A produtividade evoluiu. Agora, a gestão financeira e jurídica precisa acompanhar essa evolução. Porque a próxima vantagem competitiva não estará apenas na lavoura. Ela estará na capacidade de administrar riscos.

O futuro do agronegócio será decidido também no escritório

Enquanto os recordes continuam sendo comemorados nos levantamentos oficiais, cresce silenciosamente outro desafio: preservar a sustentabilidade financeira da atividade rural. Produzir continuará sendo indispensável. Mas administrar contratos, organizar o passivo, compreender o crédito rural e utilizar corretamente os instrumentos jurídicos disponíveis tornou-se parte da própria estratégia produtiva. Como resume o advogado Dr. Pedreira:

Dr. Milton Pedreira Júnior | Especialista em Direito Agrário
Dr. Milton Pedreira Júnior | Especialista em Direito Agrário

A produtividade continua sendo essencial. Mas, em um ambiente de margens apertadas, crédito mais caro e contratos cada vez mais complexos, proteger a atividade rural exige também estratégia jurídica. Hoje, produzir bem é apenas uma parte da equação; preservar a capacidade financeira da propriedade é o que garante a continuidade do negócio.