Brasil pode liderar economia verde com mercado de US$ 125 bi até 2030
Sustentabilidade · Por Redação ConectaAgro · 24 de maio de 2026
Estudo da McKinsey aponta que o país tem potencial único em energia renovável, biocombustíveis e créditos de carbono para se tornar protagonista global na descarbonização.

O Brasil reúne condições únicas para se tornar uma das principais potências da economia verde global e capturar um mercado superior a US$ 125 bilhões até 2030. A conclusão é de um estudo da consultoria McKinsey, que mapeou três grandes frentes de atuação para o país: energia renovável, energia e materiais de base biológica, e mercados voluntários de carbono. O agronegócio — responsável por cerca de 27% do PIB nacional em 2021 — está no centro dessa transformação.
Segundo o levantamento, o caminho para capturar essas oportunidades passa, necessariamente, pelo controle do desmatamento e pelo equacionamento da legislação fundiária. Cerca de metade das emissões brasileiras de gases de efeito estufa — estimadas em 2,2 gigatoneladas de CO2 equivalente por ano — provém da supressão de vegetação nativa, com 80% concentrado no bioma amazônico.
Energia renovável e hidrogênio verde
Na geração de energia, a participação de fontes eólica e solar deve alcançar 47% da capacidade instalada do Brasil até 2040, superando hidrelétricas, termelétricas e biomassa. Esse crescimento representa um mercado adicional de até US$ 11 bilhões naquele ano. A competitividade em energia limpa abre ainda caminho para o hidrogênio verde (H2V): o estudo projeta custo de produção abaixo de US$ 1,50 por quilo em 2030, alinhado aos melhores patamares mundiais. A oportunidade total do H2V brasileiro é estimada entre US$ 15 e 20 bilhões, com demanda doméstica respondendo pela maior parcela.
Biocombustíveis, biometano e biomassa
O país também está posicionado para liderar a produção global de combustível sustentável de aviação (SAF), aproveitando matérias-primas como óleo de soja, vinhaça de cana-de-açúcar e cultivos em pastagens degradadas, como a macaúba. Essa oportunidade pode somar até US$ 40 bilhões até 2040. Já o mercado de biometano — produzido a partir de resíduos da cana, da pecuária bovina e leiteira, da suinocultura e do lixo urbano — pode valer US$ 15 bilhões na mesma data. Atualmente, o Brasil utiliza apenas 10% do seu potencial nesse segmento.
Na siderurgia, o uso de biocarvão de eucalipto como substituto ao carvão mineral pode movimentar entre US$ 3 e 4 bilhões até 2030, com redução de até 90% nas emissões em relação às rotas tradicionais. A logística de escoamento e o ciclo de crescimento do eucalipto são apontados como os principais gargalos.
Créditos de carbono: 15% do potencial global
O Brasil detém 15% do potencial mundial de sequestro de carbono por meio de soluções climáticas naturais — a maior fatia entre todos os países. Com um potencial estimado de 1,2 a 1,9 gigatoneladas de CO2 equivalente, o mercado voluntário de carbono brasileiro pode atingir US$ 15 bilhões em 2030 e US$ 35 bilhões em 2040. Cerca de 80% desse potencial está ligado a projetos de reflorestamento em pastagens degradadas, que também geram benefícios de biodiversidade e segurança hídrica. A McKinsey estima que, com um preço de crédito de US$ 30 por tonelada, seria financeiramente mais vantajoso restaurar cerca de 70 milhões de hectares de pasto do que mantê-los em pecuária extensiva.
Desafios e papel do setor público
- Reduzir o desmatamento ilegal e regularizar a legislação fundiária
- Criar marcos regulatórios para hidrogênio verde, biometano e mercado de carbono
- Desenvolver infraestrutura de transporte e conexão de projetos à rede elétrica
- Estimular parcerias público-privadas e acordos de offtake para viabilizar novos mercados
- Elaborar metodologias de certificação compatíveis com a realidade da agropecuária brasileira
O estudo ressalta que a oportunidade verde pode igualar em tamanho o mercado agrícola atual do Brasil e que seu aproveitamento dependerá de colaboração intensa entre governo, setor privado e instituições financeiras. Segundo a McKinsey, o investimento global necessário para a transição econômica de baixo carbono chegará a US$ 3 a 5 trilhões anuais até 2030 — a maior realocação de capital da história —, e o Brasil tem posição privilegiada para atrair parcela relevante desse fluxo.