Heringer despenca, 3tentos perde rentabilidade e soja sobe: o que moveu o agro na semana
Mercado · Por Vinicius Vasconcelos · 18 de agosto de 2026
Balanços do 2T26 expõem pressão sobre margens em insumos, enquanto dólar alto sustenta a soja e cota chinesa desacelera exportações de carne bovina.

A última semana concentrou uma sequência de números que ajudam a entender o momento do agronegócio brasileiro. De um lado, empresas que vendem para o produtor mostrando margens comprimidas e queda forte de volume. De outro, o produtor de soja diante de uma janela de venda favorecida pelo câmbio, e o pecuarista observando o preço da arroba resistir mesmo com as exportações desacelerando.
É um retrato de um mercado que não está em crise generalizada, mas em rearranjo. Quem compra insumo está adiando decisão. Quem vende grão está achando comprador. E quem vende boi está segurando preço com oferta curta, não com demanda em alta.
Negócios: Heringer entrega 62% menos fertilizante e volta ao prejuízo
A Fertilizantes Heringer, controlada pela EuroChem e em recuperação judicial desde 2019, registrou queda de 62% no volume entregue no segundo trimestre de 2026. Foram 103 mil toneladas, contra 274 mil toneladas no mesmo período de 2025. O prejuízo líquido do trimestre foi de R$ 37 milhões, ante R$ 29 milhões um ano antes, com despesas financeiras de quase R$ 40 milhões puxadas pelo efeito cambial.
O resultado operacional (Ebitda) ficou negativo em R$ 3 milhões. Vale o contexto: no segundo trimestre de 2025 esse mesmo indicador havia sido negativo em R$ 76,3 milhões. Ou seja, a companhia melhorou de forma expressiva a linha operacional ao mesmo tempo em que perdeu quase dois terços do volume vendido. Isso diz muito sobre a estratégia atual da empresa, que é cortar custo, hibernar planta e priorizar produto premium em vez de brigar por tonelagem.
O trimestre não é um ponto fora da curva. No primeiro trimestre de 2026, a Heringer já havia entregue 202 mil toneladas contra 358 mil toneladas do 1T25, uma queda de 43,6%, com receita líquida de R$ 525,3 milhões, 42% menor que um ano antes. O lucro daquele trimestre, de R$ 14,6 milhões, veio 75,5% abaixo do registrado no 1T25. O Ebitda foi negativo em R$ 4,1 milhões.
A companhia também vive instabilidade de gestão. Foram quatro trocas de CEO em menos de um ano, com o comando passando por Gustavo Horbach, Rodrigo Horta, Sérgio Castanheiro e Gustavo Oubinha até chegar a Danill Bazdyrev, anunciado em abril de 2026. Ao longo desse período, a EuroChem ampliou a presença de executivos ligados à controladora nos cargos de direção e no conselho. Em fevereiro, a Heringer captou cerca de R$ 100 milhões em empréstimo da própria controladora para pagar e refinanciar dívidas e sustentar a operação.
Em 2025 fechado, o prejuízo foi de R$ 172 milhões, com receita líquida de R$ 4,09 bilhões e queda de 24% no volume entregue. A empresa hibernou plantas em Rio Verde (GO), Ourinhos (SP) e Iguatama (MG), e mantém unidade de mistura e distribuição em Dourados (MS), o que torna o assunto especialmente relevante para o produtor da região.
Por que isso importa para quem está no campo: a queda de volume da Heringer não é apenas um problema da Heringer. Ela reflete produtor postergando compra de adubo diante de preço alto de fertilizante, crédito mais apertado e incerteza sobre relação de troca. Quando a compra é adiada demais, o risco migra para a logística de entrega na janela de plantio e para o custo de reposição de nutriente no solo.
Balanços: 3tentos cresce em receita, mas vê rentabilidade despencar
A 3tentos (TTEN3) divulgou o balanço do segundo trimestre e confirmou o que o mercado já vinha precificando. A receita operacional líquida cresceu 31,9%, para R$ 4,7 bilhões, o trigésimo trimestre consecutivo de alta na linha de topo. O problema apareceu abaixo dela.
O lucro líquido ajustado caiu 86,3%, para R$ 14,4 milhões, com margem líquida ajustada de 0,3%. O Ebitda ajustado com hedge recuou 64,3%, para R$ 78,7 milhões, com margem de apenas 1,7%. No critério contábil, o lucro líquido foi de R$ 205,9 milhões, queda de 37,8%.
A pressão veio principalmente da indústria. A receita do segmento industrial subiu 4,7%, para R$ 2,01 bilhões, mas o lucro bruto ajustado caiu 41,2%. Já Grãos, segmento de menor rentabilidade, cresceu 76% em receita e passou a pesar mais no mix, o que derruba a margem consolidada mesmo com faturamento maior. Insumos avançou 24,6%. Entre os fatores citados estão a queda nos preços do farelo de soja e do biodiesel, o aumento dos custos de insumos e o atraso na implementação do B16.
A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 3,58 bilhões, alta de quase R$ 2 bilhões frente a dezembro de 2025, puxada por capital de giro para formação de estoque de soja e por investimentos em expansão industrial, incluindo a nova unidade de etanol de milho no Vale do Araguaia, em Mato Grosso, que entrou em operação no trimestre. A rede de lojas chegou a 81 unidades. A companhia anunciou programa de recompra de até 5 milhões de ações e atualizou as projeções para 2026, com originação estimada em 6,53 milhões de toneladas de grãos. As ações caíram 9,5% no pregão seguinte à divulgação.
Leitura para o produtor: empresa de insumo e originação convivendo com margem apertada tende a ficar mais seletiva no crédito ao produtor e mais dura na relação de troca. Vale acompanhar de perto as condições oferecidas na negociação de barter para a safra 2026/27.
Mercado: dólar em alta e demanda global sustentam a soja
Enquanto o setor de insumos aperta, o mercado de soja abriu uma janela favorável ao vendedor. Segundo o Cepea, a valorização do dólar frente ao real elevou a competitividade da soja brasileira no mercado internacional e aumentou a disputa entre compradores domésticos e externos pelo produto disponível. O indicador do Cepea em Paranaguá fechou a primeira quinzena de agosto a R$ 149,00 por saca, alta de 2,8% frente ao fim de julho. O movimento vem se sustentando desde julho, quando os prêmios subiram e as negociações de embarque foram antecipadas. Compradores internacionais já negociavam em julho embarques previstos para novembro, algo que na safra passada só começava em agosto.
O fundamento por trás disso é a relação entre estoques e consumo mundial. Para a safra 2025/26, o Cepea projeta 33,5%, o menor patamar desde 2022/23. Para 2026/27, a estimativa é de 32,3%, ou seja, ainda mais ajustada, mesmo com projeção de crescimento da oferta, porque a demanda deve avançar em ritmo maior.
O que fazer com essa informação: dólar valorizado somado a prêmio firme e estoque mundial ajustado forma uma combinação que historicamente não dura o ano inteiro. Produtor com grão em armazém e custo de safra já dimensionado tem aqui um cenário para travar parte da comercialização, sem apostar todas as fichas em um único patamar de preço.
Pecuária: arroba resiste, mas queda nas exportações acende alerta
Na pecuária, o preço da arroba do boi gordo mostrou resistência em agosto, mesmo com sinais claros de desaceleração nas exportações. O contrato futuro de boi gordo com vencimento em outubro de 2026 fechou a R$ 360,20 por arroba na sessão de 12 de agosto, no terceiro avanço consecutivo.
Nos primeiros dias úteis do mês, o Brasil exportou 52,4 mil toneladas de carne bovina in natura, com média diária de 10,5 mil toneladas. O volume diário ficou 17,9% abaixo da média de agosto de 2025. Em compensação, o preço médio da tonelada avançou 10,5%, para cerca de US$ 6,2 mil.
O motivo da desaceleração está na cota chinesa. Até o início de agosto, a China já havia desembaraçado 995,4 mil toneladas de carne bovina brasileira, o equivalente a 90% da cota anual de 1,106 milhão de toneladas sujeita à tarifa de 12%. O que passar disso entra com sobretaxa adicional de 55%, o que praticamente inviabiliza o embarque nas condições atuais.
O efeito já apareceu em julho. O Brasil exportou 264,4 mil toneladas no mês, queda de 16,1% na comparação anual, com os embarques para a China recuando 47%, para 85,8 mil toneladas. Outros destinos absorveram parte do volume: as vendas para o Chile subiram 50,2%, para a União Europeia 52,6%, e os Estados Unidos também ampliaram compras.
O ponto de atenção: a arroba está sendo sustentada por oferta restrita de animais terminados e por preço externo elevado, não por demanda chinesa aquecida. Se a oferta de boi pronto crescer nos próximos meses sem que a China retome ritmo, a conta muda. Quem tem animal em terminação precisa acompanhar semana a semana a escala de abate dos frigoríficos da região.
O que observar nas próximas semanas
- Fertilizante: a queda de volume da Heringer sinaliza compra represada. Represamento tende a virar corrida por produto e frete mais caro quando a janela de plantio se aproxima.
- Relação de troca: com soja valorizada em reais e insumo pressionado, vale recalcular quantas sacas o adubo está custando antes de fechar barter.
- Comercialização de soja: dólar e prêmio firmes criam janela, mas o cenário depende de câmbio, que é a variável mais volátil da equação.
- Boi gordo: o comportamento dos embarques para a China em setembro e outubro deve definir se a firmeza da arroba se mantém ou cede.