China reduz compras de soja dos EUA em 21% em junho; Brasil avança 14%

Mercado · Por Redação ConectaAgro · 20 de julho de 2026

Tensões comerciais entre Washington e Pequim redirecionam fluxo global de soja. Brasil consolida posição como principal fornecedor ao mercado chinês.

China reduz compras de soja dos EUA em 21% em junho; Brasil avança 14%

As importações chinesas de soja norte-americana recuaram 20,6% em junho na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo dados divulgados pela Reuters em 20 de julho. No mesmo período, os embarques brasileiros para a China cresceram 14%, movimento que reforça a substituição de origem em curso no maior mercado consumidor de soja do mundo.

O dado importa porque a China absorve mais da metade de toda a soja comercializada globalmente. Qualquer oscilação na composição de suas importações reverbera diretamente sobre preços na Bolsa de Chicago (CBOT), sobre o câmbio aplicado às exportações brasileiras e sobre a receita de produtores e tradings que operam no corredor de exportação do Centro-Oeste ao arco portuário de Santos, Paranaguá e os terminais do Norte.

Guerra comercial como pano de fundo estrutural

O recuo das compras chinesas de soja americana não é episódico. Ele reflete o impacto prolongado das tensões comerciais entre Washington e Pequim — descritas pela própria Reuters no resumo da notícia como fator determinante do movimento de junho. Desde a escalada tarifária iniciada em 2018, a China vem sistematicamente diversificando seus fornecedores de proteína vegetal, reduzindo a dependência dos Estados Unidos e ampliando contratos de longo prazo com o Brasil e, em menor escala, com Argentina e Ucrânia.

O Brasil já havia se beneficiado desse realinhamento na safra 2023/24, quando as exportações nacionais de soja bateram recordes históricos em volume. O crescimento de 14% nos embarques brasileiros para a China em junho de 2025 indica que esse padrão persiste — e pode se aprofundar caso as tarifas americanas sobre produtos agrícolas chineses, e as retaliações de Pequim sobre grãos dos EUA, permaneçam em vigor ou se intensifiquem no segundo semestre.

O que os números revelam sobre o fluxo global

Uma queda de 20,6% nas importações chinesas de soja americana em um único mês representa desvio relevante de fluxo. Os EUA são historicamente o segundo maior exportador de soja do mundo, atrás do Brasil, e dependem da China como destino de parcela significativa de sua produção. Quando Pequim reduz compras americanas, os grãos que deixam de ser embarcados para a Ásia precisam encontrar outros destinos — o que pressiona preços no mercado doméstico americano e pode ampliar a competitividade do produto dos EUA em mercados alternativos, como a União Europeia e o Sudeste Asiático.

Para o Brasil, o avanço de 14% nos embarques para a China em junho ocorre em um momento em que o país ainda escoa volumes expressivos da safra 2024/25 — estimada pela CONAB em patamar próximo a 170 milhões de toneladas. Junho e julho concentram historicamente o pico de exportações brasileiras de soja, quando a janela de competitividade do grão nacional frente ao americano é mais ampla, tanto por razões logísticas quanto pelo calendário de colheita dos EUA, que só começa a ganhar tração no outono do Hemisfério Norte.

Atores e interesses em jogo

Do lado brasileiro, os principais beneficiários diretos são os exportadores e tradings com posição em soja — empresas como Cargill, ADM, Bunge, Louis Dreyfus e Amaggi, que operam terminais portuários e contratos de fornecimento com importadoras chinesas. Produtores de Mato Grosso, Paraná e Goiás também saem favorecidos quando a demanda chinesa se volta ao Brasil, pois a pressão compradora sustenta o preço da saca no mercado físico doméstico, ainda que o câmbio e o prêmio de exportação (basis) interfiram na equação final recebida pelo produtor.

Do lado americano, agricultores do Meio-Oeste dos EUA e entidades como a American Soybean Association acompanham com preocupação o encolhimento do mercado chinês. A perda de espaço para o Brasil no principal destino global de soja é uma das pressões que alimentam o lobby americano por acordos comerciais e pela revisão das tarifas recíprocas com a China. O governo Trump, ao mesmo tempo em que impõe tarifas amplas sobre importações, enfrenta a contradição de ver seus produtores agrícolas perderem competitividade justamente nos mercados que mais crescem.

Próximos passos

O comportamento das importações chinesas nos meses de agosto e setembro será determinante para avaliar se o movimento de junho consolida uma tendência ou representa variação pontual. A partir de outubro, os EUA entram em ritmo pleno de colheita e exportação, o que historicamente reequilibra a participação americana nas compras chinesas. Se as tarifas permanecerem como estão, contudo, o Brasil pode manter vantagem competitiva por mais tempo que o usual neste ciclo. A CONAB deve atualizar suas projeções de exportação da safra 2024/25 nas próximas semanas, e o dado de junho reforça o cenário de volumes recordes no acumulado do ano.