El Niño se fortalece e MS entra na rota do veranico: o que muda no plantio
Clima · Por Vinicius Vasconcelos · 21 de julho de 2026
NOAA projeta El Niño muito forte no fim do ano. No Centro-Oeste, o INMET alerta para chuva menor e veranicos na primavera — justamente na janela de plantio da soja em MS.

O oceano voltou a esquentar do outro lado do mundo, e o campo brasileiro já está de olho. A NOAA, agência dos Estados Unidos considerada referência mundial em previsão climática, confirmou oficialmente a formação do El Niño no Pacífico equatorial e emitiu Aviso de El Niño. As atualizações mais recentes da agência endureceram o tom: a probabilidade de o evento atingir a categoria de muito forte entre outubro e dezembro está na casa dos 80%, e há cerca de 63% de chance de as anomalias de temperatura da superfície do mar superarem 2,0 °C entre novembro e janeiro.
Não é exagero de manchete. Os modelos dos centros de previsão americanos indicam pico entre o fim de 2026 e o início de 2027, com chance superior a 90% de o fenômeno persistir até o começo de 2027 — ou seja, atravessando toda a nossa safra de verão. Se a intensidade projetada se confirmar, o evento entra no grupo dos mais fortes registrados desde 1950, ao lado de 1982/83, 1997/98 e 2015/16.
Antes de qualquer conclusão apressada, um alerta de método: prever o comportamento exato do clima meses à frente é território de probabilidade, não de certeza. O que os dados permitem hoje é montar um diagnóstico de risco. E é disso que o produtor precisa agora, no início do planejamento da safra 2026/2027.
O que dizem os órgãos oficiais
No Brasil, o monitoramento é conduzido por nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam, que aponta alta probabilidade de configuração do El Niño no segundo semestre de 2026, com extensão até o início de 2027. A Organização Meteorológica Mundial trabalha na mesma direção.
O ponto que separa a análise séria do sensacionalismo é este: o El Niño não afeta o Brasil de forma uniforme. Uma mesma condição climática pode castigar uma lavoura em uma região e trazer alívio para outra. O saldo geral exige atenção, mas a leitura tem que ser regional, cultura por cultura.
Por que água quente no Pacífico chega até a sua lavoura
O mecanismo é conhecido. Em condições normais, os ventos alísios empurram a água quente do Pacífico para o lado da Ásia e da Oceania. Quando esses ventos enfraquecem, a água quente se espalha em direção à América do Sul, muda o padrão de evaporação e desloca as nuvens de chuva para fora dos lugares onde elas costumam cair. O resultado, no Brasil, é um mapa de chuvas embaralhado por alguns meses, com reflexo direto na produtividade das culturas de sequeiro e no calendário de plantio e colheita.
O cenário por região
- Norte e Nordeste: historicamente é a faixa que mais sofre em anos de El Niño, com redução de chuvas e maior risco de estiagem, o que pressiona lavouras de sequeiro e a disponibilidade de água.
- Sul: o padrão se inverte. A tendência é de chuvas acima da média, o que favorece a disponibilidade hídrica das culturas de inverno, mas traz o risco oposto e igualmente sério — encharcamento do solo, atraso de plantio e colheita, perda de qualidade e maior incidência de doenças fúngicas.
- Sudeste: temperaturas acima da média e indicativos de condições mais secas em áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo durante a primavera. Calor elevado acelera o ciclo das culturas e favorece doenças.
- Centro-Oeste: o INMET aponta que o El Niño pode reduzir as precipitações e aumentar a frequência de veranicos na região, especialmente na primavera e no início do verão, período que coincide com a implantação das lavouras. O órgão é explícito ao dizer que isso pode prejudicar o plantio e o desenvolvimento inicial de soja e milho. Some-se a isso a projeção de temperaturas acima do normal no segundo semestre e o quadro fica claro: o risco no Centro-Oeste não é de excesso de chuva, é de irregularidade dela na pior hora.
O foco no Mato Grosso do Sul
O recado já chegou ao produtor local por uma fonte de dentro de casa. A Aprosoja/MS publicou que o El Niño exige atenção no início do plantio da soja 2026/2027 no estado. Não é um chamado ao desespero. É um chamado ao planejamento.
O peso disso fica claro nos números. O Valor Bruto da Produção agropecuária de Mato Grosso do Sul alcançou R$ 76,3 bilhões em 2025, alta de 23,6%. Soja e milho respondem por cerca de 77% da produção agrícola do estado — a soja sozinha representa 34,5% do VBP e o milho, 14,4%. Qualquer variação de produtividade nessas duas culturas se propaga por toda a cadeia: frete, comércio das cidades, arrecadação dos municípios.
Um veranico na primavera não é um problema meteorológico abstrato. Ele atinge a emergência da lavoura, obriga replantio em área pontual, empurra o calendário e — o efeito cascata que mais dói em MS — encurta a janela do milho de segunda safra. É por isso que ler o clima com antecedência deixou de ser curiosidade e virou ferramenta de gestão de risco.
O que a história ensina, com o devido cuidado
Os anos de El Niño classificado como muito forte, com destaque para 1982, 1997 e 2015, ficaram marcados por perdas relevantes no agro brasileiro, alta nos preços dos alimentos e pressão sobre a inflação. Em 2015, no último grande episódio, o país conviveu com quebra na produção de grãos e o índice oficial de inflação fechou o ano em 10,67%.
Aqui entra a honestidade que o produtor merece: o clima foi um fator, não o único. Em cada um desses ciclos havia também dívida, juros altos e instabilidade política somando ao problema. Atribuir ao El Niño, sozinho, a responsabilidade por uma crise é simplificar demais.
Além disso, o campo de 2026 não é o de 2015. Houve avanço em genética, em manejo de solo, em irrigação, em seguro rural e em previsão climática. O risco existe e precisa ser tratado, mas o produtor tem hoje mais instrumentos para atravessá-lo.
O que o produtor pode fazer agora
O diagnóstico só tem valor se virar decisão. Alguns caminhos práticos para os próximos meses:
- Acompanhar os boletins oficiais. INMET e CPTEC/INPE atualizam as previsões todo mês. Decisão de plantio tomada com o dado mais recente vale mais do que qualquer manchete.
- Respeitar o ZARC e escalonar o plantio. Distribuir janelas de semeadura dilui o risco de a lavoura inteira pegar o pior momento de calor ou de veranico.
- Reforçar o manejo hídrico e do solo. Onde há irrigação, revisar o sistema antes do pico de calor de agosto e setembro. Onde não há, priorizar cobertura e retenção de umidade no solo.
- Antecipar o manejo sanitário. Calor e umidade irregular elevam o risco de doenças. Planejar defensivos e monitoramento evita perda de qualidade e custo emergencial.
- Blindar o caixa. Seguro rural e Proagro existem exatamente para eventos climáticos. Vale revisar também a exposição ao custo de insumos, que tende a subir quando o clima aperta a oferta.
- Planejar compras com calma. Formar estoque de insumos essenciais de forma programada, sem correria de última hora, protege a operação de picos de preço.
O El Niño de 2026 é real, está se fortalecendo e merece atenção do primeiro ao último elo do agro. Mas atenção não é medo. Para o produtor de Mato Grosso do Sul, o cenário mais provável não é o de catástrofe, e sim o de um clima mais quente e de chuva irregular em momentos específicos — o tipo de risco que cobra planejamento fino em vez de improviso. Quem lê o dado com antecedência, ajusta o manejo e organiza o caixa não apenas atravessa o fenômeno. Muitas vezes, sai dele em vantagem sobre quem só percebeu o problema quando ele já estava na porteira.